Espiritualidade
A espiritualidade da Comunidade das Beatitudes
Eis os elementos fundamentais da vocação da Comunidade das Beatitudes :
Viver na perspectiva do Reino que vem
A espiritualidade da comunidade é fortemente marcada pela intuição que "o tempo se fez breve" e que "passa a figura deste mundo" (I Cor 7, 29-31). É portanto urgente "acordar-se do sono" (Rm 13,11), centralizar nossa existência na espera do Reino e realizá-la como participação ao que já é possível antecipar deste Reino que virá em breve. Isto nos leva a vigiar e a rezar para apressar a vinda do Reino, a não nos prendermos ao que é efímero, mas a considerar-nos como pereginos e estrangeiros neste mundo, procurando de todo coração viver aqui na terra esta comunhão amorosa com Deus, Nossa Senhora e os Santos que serão nossa felicidade no Reino. Significa também fazer o possível para testemunhar a realidade e a força dessa esperança, contribuindo ao advento desse Reino pela oração e pelo anúncio da boa nova a todos os pobres: "Bem-aventurados os pobres, porque deles é o Reino dos Céus" (Mt 5,3).
Tender à oração contínua
A primeira e mais importante conseqüência desta "tensão escastológica" é a oração contínua: "Orai sem cessar" (I Tes 5, 17). Porque é sobretudo na oração que se antecipa a realidade do Reino como dom de comunhão com Deus.
Oração de louvor que é participação à liturgia da Jerusalém celeste (pelo louvor expontâneo, pelo canto, pela liturgia).
Oração de intercessão, sobretudo seguindo os cinco grandes temas de intercessão que o Espírito Santo confiou à Comunidade: oração para apressar a vinda gloriosa de Cristo, oração pela unidade dos cristãos, pelo anúncio do Evangelho a todos os povos, pelas vocações e enfim, pelo povo de Israel.
Enfim, e sobretudo, oração de adoração silenciosa, possivelmemte diante do Santíssimo Sacramento. Esta é fundamental porque é na adoração silenciosa da Eucaristia que a Comunidade encontra sua razão de ser e o seu dinamismo espiritual.
De fato, é a vida inteira que tende a tornar-se oração: fazer tudo por amor a Deus e em sua presença, mesmo as coisas mais banais e simples, a fim que tudo se torne para nós aos poucos causa de louvor, de oração, de união com Deus. Não pela procura de experiências particulares ou de graças sensíveis, mas por um corportamento de fé que se exprime em uma perseverança humilde e fiel, em um abandono connfiante e sereno nas mãos do Pai.
Vida de conversão permanente
A vida do Reino pode penetrar e transfigurar a nossa existência na medida em que em nós morre o homem velho, com a sua mentalidade e as suas obras. A vocação escatológica implica um esforço e um combate constantes para fazer morrer em nós a vontade própria e todas as tendências orgulhosas e egoístas. Ela nos leva a uma vida de conversão permanente na qual se procura uma fidelidade sempre mais completa às inspirações do Espírito Santo. As orientações fundamentais desta luta são as que a tradição monástica sempre relevou: obediência, pobreza e castidade. Qualquer que seja a forma de vida, somos chamados a um "monaquismo interiorizado" que nos faz morrer ao mundo, abraçar a Cruz, escolher voluntariamente a prática de valores como a submissão, a renúncia de nós mesmos, a pobreza, a pureza, a aceitação, como uma graça, de todas as circunstâncias e acontecimentos da vida que nos despojam de alguma coisa, na certeza de que só Deus poderá encher os nossos corações.
A unidade da Igreja e o mistério de Israel
A vinda do Reino é intimamente coligada com a obra do Espírito Santo, no nosso tempo para renovar e curar a Igreja e fazê-la reencontrar a sua beleza e a sua unidade. Esta preocupação pela unidade da Igreja, a oração por todos os nossos irmãos separados, é portanto uma dimensão essencial da vocação das Beatitudes.
Ela é coligada a uma outra intuição fundamental: o povo hebraico, que permanece para sempre o povo eleito e amado por Deus, porque "os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento" (Rm 11, 29), tem um papel muito importante a ser realizado na história da salvação, particularmente no final dos tempos. Segundo as palavras de São Paulo (em Rm 11, 12), a história da Igreja e do mundo não poderá chegar à sua realização e à vinda gloriosa do Senhor sem a "participação" de Israel, mesmo se a natureza dessa participação permanece misteriosa. Nós cristãos somos convidados, seguindo as diretivas do Concílio Vaticano II (Nostra Aetate), a reconhecer a eleição e a graça única que repousam sobre Israel, a estimá-lo e a amá-lo com o amor que Deus nutre por ele, a interceder pela plena realização dos desígnios de Deus sobre o seu povo, a contribuir, pela oração e pelo testemunho, para que o mundo cristão se livre definitivamente dos resíduos de anti-semitismo que ele veiculou e que constituem um grande obstáculo ao plano da Salvação. Além do mais, para nós cristãos, conhecer e amar Israel, a sua tradição e a sua oração, faz-nos redescobrir as nossas raízes e nos ajuda a melhor compreender a nossa fé.
A Boa-Nova anunciada aos pobres
O espírito da Comunidade é um convite a acolher plenamente o paradoxo evangélico "Bem-aventurados os pobres", a não nos comportarmos como "inimigos da Cruz de Cristo" (Fil 3, 18), mas a abraçarmos com confiança todas as formas de sofrimento e de pobreza que Deus permite na nossa vida, considerando-as como uma riqueza, glorificando-nos das nossas enfermidades e fraquezas, porque são o lugar do encontro mais forte com a misericórdia de Deus.
O Espírito Santo nos ensina também a termos um olhar diferente daquele do mundo sobre todos os pequenos, os pobres, as pessoas feridas no corpo ou na mente, e neles saber reconhecer a presença de Cristo, considerando-os como os destinatários privilegiados do Evangelho. Devemos nos convencer de que é na medida em que os amamos e sabemos acolhê-los e aproximar-nos deles que se revela a nós toda a beleza e a profundidade da mensagem cristã. De fato, não esperamos a salvação do mundo pela nossa sabedoria ou pela nossa ação, mas através de uma efusão sem precedentes do Amor Misericordioso de Deus sobre todas as chagas da humanidade, de um "Pentecostes de Amor", profetizado por Marthe Robin para os últimos tempos, que pode ser apressado pela nossa oração e pela conformidade dos nossos comportamentos ao Evangelho.
Evangelizar pela beleza
"Ai de mim, se eu não anunciar o evangelho!" (I Cor 9, 16). Evangelizar significa permitir aos corações de serem tocados e curados pela revelação da profundidade do amor de Deus e fazer ver, antecipadamente, a glória e a beleza de seu Reino, para que o homem possa desejá-l’O ardentemente, e n’Ele encontrar a sua consoloção e a sua esperança. A vocação da Comunidade é uma chamada a responder à fome de Deus escondida no coração de cada homem, pela palavra e pelo testemunho de vida. Contribuiremos também para que o culto dado a Deus na Igreja possa fazer saborear, a um mundo triste e desiludido, algo do esplendor do mundo que vem. Cultivaremos, portanto, tudo o que a isto contribui: a beleza da liturgia, o louvor, o canto, a dança e a arte sacra, a restauração e a ampliação do genuíno patrimônio estético da Igreja universal (canto gregoriano, ícones orientais, etc ...).
Maria e a Sagrada Família
A nossa vocação comporta uma chamada a entrar numa intimidade sempre mais profunda com Maria porque nela foram revelados estes segredos do Reino, escondidos aos sábios e aos inteligentes, mas revelados aos pequeninos. Consagrar-nos a Maria, segundo a espiritualidade de São Luís Grignon de Monfort, depor tudo nas suas mãos como as crianças à sua mãe, é o meio mais simples e fecundo para entrar em comunhão com Deus Pai, para viver e compreender todas as dimensões de nossa espiritualidade. A figura de São José é importante e indissociavelmente unida à de Maria, sobretudo num mundo onde a desagregação da família está destruindo o homem, como ícone da paternidade de Deus. Assim como Jesus abandonou-se totalmente nas mãos de Maria e de José, somos também nós chamados a fazê-lo, de modo que as nossas comunidades e famílias possam participar da graça da Sagrada Família de Nazaré, possam viver as mesmas relações inter-pessoais plasmadas no amor, a mesma alegria e paz, o mesmo abandono confiante à Providência, tornando-se imagens vivas da participação do homem ao amor trinitário.
Comunhão com a Igreja
A Comunidade fez sua uma intuição de Don Bosco, recebida num célebre sonho: nas tempestades e batalhas que ela atravessa, a Igreja encontrará a sua salvação na fidelidade aos três "candores": amor pela Eucaristia, devoção filial a Nossa Senhora, comunhão com o Papa. A Comunidade nutre um afeto filial ao Santo Padre, reza por ele, procura ser atenta aos seus ensinamentos, praticá-los e difundí-los. A Comunidade reconhece o papel confiado aos Bispos como pastores e vive em filial submissão a eles. Procura também nutrir um espírito de estima e de comunhão com tudo o que constitui o corpo visível da Igreja: paróquias, institutos e movimentos vários. Enfim, os membros da Comunidade e as pessoas que se reconhecem na sua espiritualidade procuram o mais possível manifestar entre eles o mistério da Igreja como comunhão de amor, à imagem da comunidade primitiva de Jerusalém, promovendo a condivisão espiritual e material, amando-se mutuamente com um amor simples e alegre.